Breve história da Avenida São Luís

Avenida São Luís

Avenida São Luís

Há quem diga que a Avenida São Luís é uma ilha residencial no centro de São Paulo. A afirmação não é verdadeira, mas creio que, antes do “ressurgimento” do centro como local de novos empreendimentos imobiliários residenciais, ela era o único lugar por ali que era desejado. Essa sanha imobiliária, aliás, ainda não chegou à avenida, provavelmente devido à falta de terrenos disponíveis. Bastante arborizada e movimentada, ela é um agradável local para um passeio pelo chamado “Centro Novo”, que já não é mais assim tão novo. O passado dela, entretanto, é aristocrático, especialmente quando ela ainda não era uma avenida, mas a simples Rua São Luís. O livro De Beco a Avenida — A História da Rua São Luiz, de José Eduardo de Assis Lefèvre, a mais completa obra de referência sobre a localidade, descreve assim as origens de seu nome:

A primeira planta da cidade em que aparece o nome ‘Rua de São Luiz’ é a da Companhia Cantareira e Esgotos, de 1881. Athayde Jorge, [em seu livro Consolação: Uma Reportagem Histórica], afirma que o nome teria sido adotado por volta de 1860 e refere-se ao Ato número 972, de 24 de agosto de 1916, que oficializou a nomenclatura e a situação das praças, avenidas e ruas constantes de planta preparada à época pela Diretoria de Obras e Viação. Ernani Silva Bruno faz referência a uma Ata da Câmara Municipal de 1848, em que já consta o nome de Beco de São Luiz. (…) A origem do nome da Rua São Luiz pode ser explicada por duas razões: a homenagem ao patriarca da família Souza Queiroz [o Brigadeiro Luís Antônio] e a invocação de um santo de origem francesa, o que era exatamente do gosto da elite paulista da época, que aspirava identificar-se com aquela cultura.

Mesmo já batizada como Rua São Luís, a via ainda mantinha características de seu passado, quando ainda era conhecida como “Beco Comprido”. Como relata Lefèvre, “a [rua] era estreita, quase uma rua particular”. Já era muito arborizada, cortesia de um barão do império que, ao alargar o Beco Comprido, plantou duas fileiras de jacarandás ali. Tão famosos ficaram os jacarandás, que o poeta Martins Fontes compôs-lhes um soneto, nos anos 1930, cuja última estrofe canta: “Pela beleza da melancolia, esse sombral violáceo deveria chamar-se — Rua da Saudade em Flor.”

Em 1924, foram divulgados os primeiros projetos para “uma avenida circular, constituindo perímetro de irradiação”, basicamente um minianel viário no centro, idealizado por João Florence de Ulhoa Cintra, engenheiro da Prefeitura. O anel começaria na altura da Escola Normal, na Praça da República, seguindo por entre as ruas São Luís e Sete de Abril e, na altura de onde é hoje a Praça Dom José Gaspar, dividir-se-ia em três.

A via era conhecida por abrigar o “palácio do bispo”, com seu imenso jardim e suas imponentes árvores, a Vila Normanda, com seus chalés de telhado pontudo no estilo suíço, e, mais tarde, pelo palacete do embaixador Macedo Soares. Eram tempos em que a avenida ainda não tinha as lojas de tudo quanto é companhia aérea, que começaram a pipocar nos anos 1960 e sumiram na virada do século 20 para o 21. A avenida, hoje, ainda tem residências, porém todas em prédios de apartamentos. Estes convivem com prédios comerciais, um hotel, a Biblioteca Mário de Andrade e a Praça Dom José Gaspar.

[pullquote-right]A Biblioteca Municipal foi construída no terreno da “Chácara Velha”, a mais antiga construção conhecida na região[/pullquote-right]A Biblioteca foi construída no terreno da “Chácara Velha”, na esquina da São Luís com a Rua da Consolação/Xavier de Toledo. Ela era a mais antiga construção conhecida na antiga propriedade do Barão de Souza Queiroz, que englobava todos os terrenos da Rua São Luís e um pouco além. Em 1936, a Prefeitura deu início a negociações com o então proprietário do imóvel, o deputado federal José Cássio de Macedo Soares, para comprar parte do terreno, a fim de alargar a Rua Xavier de Toledo. Já existia a ideia de construir ali a Biblioteca Municipal, o que só pôde ser feito após a desapropriação do restante da chácara, autorizada em 3 de junho de 1937.

O projeto da Biblioteca chegou até a ser mudado, quando o construtor, Rubens Borba de Moraes, soube que ele afetaria uma sapucaia muito antiga, remanescente da mata original de São Paulo. “É por isso que, na parte de trás da Biblioteca, há uma reentrância, uma espécie de pátio embutido, com a sapucaia, que vive ainda, muito alta e muito verde”, descreveu O Estado de S. Paulo, em 1971.

A construção da Biblioteca e do Edifício Esther, na Praça da República, impediu que o projeto da avenida de irradiação fosse feito da maneira originalmente prevista, uma década e meia antes. O traçado acabaria deslocado para a São Luís, que seria alargada, com base no Ato número 1.470, de 14 de setembro de 1938. Antes do alargamento, quem passasse rapidamente pela recém alargada Avenida Ipiranga poderia até deixar de notar a arborizada entrada da Rua São Luís, descartando-a como a entrada de uma casa. Em breve, isso não mais ocorreria. O plano previa que as árvores do lado par da rua seriam mantidas, mas, a partir de então, no canteiro central, este arborizado até hoje, embora não com as mesmas árvores. Foi também nessa época que a Rua São Luís ganhou o trecho entre a Rua Marquês de Itu e a Avenida Ipiranga, no local onde ficava antes o prédio do Jardim da Infância da Escola Normal. As obras de alargamento do trecho original da rua demorariam um pouco mais para ser iniciadas.

Embora estivessem a pleno vapor em 1942, tendo algumas etapas sido concluídas antes das demais, as obras como um todo demoraram mais de dois anos para ser concluídas. Ao fim delas, apenas algumas casas tiveram de ser demolidas, todas no lado par, embora as vizinhas tenham perdido uma faixa de cerca de quinze metros em seus respectivos terrenos, enquanto as do outro lado da rua perderam apenas uma faixa de cinco metros. Um dos principais motivos para a demora na conclusão das obras era o “palácio do bispo”, um imóvel do século 19, cujo terreno era vizinho ao da Chácara Velha, adquirido pela Cúria Metropolitana de São Paulo em 1909, que servia de residência ao arcebispo da cidade. A Prefeitura desapropriou-o em 1942, mas ele só seria demolido no final de 1944, tornando-se o segundo dos antigos casarões a sucumbir, para a construção de uma praça, que passou a contar com boa parte do que havia sido o jardim do imóvel. O último ocupante da casa havia sido Dom José Gaspar d’Afonseca e Silva, então arcebispo de São Paulo.

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A cruz em homenagem a Dom José Gaspar, na praça que leva seu nome

Dom José Gaspar morreu em 27 de agosto de 1943, num acidente aéreo no Rio de Janeiro, que também vitimou o jornalista Cásper Líbero. Pouco menos de seis anos depois, a praça vizinha à antiga residência do arcebispo recebeu seu nome e ganhou uma cruz em sua homenagem, que está lá até hoje, embora a inscrição esteja praticamente ilegível. Isso deu-se após projeto de lei do vereador Aluísio Greenhalg, aprovado em 16 de maio de 1949, que tratava da nomenclatura do “logradouro público atrás da Biblioteca Municipal”. A praça antes era conhecida apenas como “Jardins da Biblioteca”.

(Na mesma sessão, o então vereador Jânio Quadros fez vários requerimentos e discursou sobre o aumento dos preços da carne e da água, aproveitando para protestar contra a ação policial que reprimiu uma conferência que ele realizara na semana anterior, chamada “Paz e Liberdade”.)

Teaser do Edifício Louvre

Teaser do Edifício Louvre, publicado em 25 de maio de 1952

O Condomínio Louvre, em 2012

O Condomínio Louvre, em 2012

Poucos anos após a praça ganhar um nome, o terreno em frente a ela, do outro lado da avenida, começou a ganhar um grande empreendimento, o Condomínio Louvre. Erguido nos terrenos onde antes ficavam as casas com números originais 5 e 7, ele foi apresentado à população por meio de um teaser publicado nos jornais em 1952, que mencionava as vantagens de se morar na Rua São Luís. Esse teaser teve como sequência um anúncio de duas páginas, agora sem mapa, mas com uma enorme ilustração do prédio, qualificado como “máximo do máximo”. Cada um dos cinco blocos levaria o nome de um pintor famoso: Pedro Américo, Da Vinci, Rembrandt, Velasquez e Renoir (este último com um dormitório de trinta metros quadrados, maior que muitos apartamentos de hoje em dia).

Mas, apesar das encorajadoras palavras publicadas nos anúncios, os apartamentos no Louvre provavelmente não foram um grande negócio para quem os comprou no lançamento. A construtora Monções enfrentou problemas financeiros e jurídicos, que adiaram a conclusão do prédio para 1966, mesmo ano em que as primeiras famílias se mudaram para lá, ocupando menos de um terço dos apartamento. Apenas em 1970 novos apartamentos passariam a ser habitados, quase vinte anos após os primeiros anúncios.

Fundos do Condomínio Louvre

Fundos do Condomínio Louvre

Independentemente desse atraso, o edifício não era o primeiro espigão a ser erguido na rua, que passou a ser avenida em meados dos anos 1950: já contava com outros prédios, como o conjunto formado pelo São Thomaz, o Santa Virgília e o Santa Rita, na esquina com a Avenida Ipiranga, e o Princesa Isabel, quase em frente ao Louvre, todos construídos após o alargamento da rua. Mas a construção mais imponente da rua ainda estava por vir: o Edifício Itália. A respeito dele, vale destacar uma curiosidade informada por Lefèvre: “A garagem em subsolo pode se considerar inexistente, com apenas dezessete vagas desenhadas no projeto original, reduzidas hoje a três.”

Tão marcante é sua presença na atual paisagem paulistana, que poucos sabem o que havia em seu terreno antes de ele ali erguer-se. Era a Vila Normanda (ou melhor, parte dela), um conjunto de casas em estilo suíço (popularmente conhecido como “chalé”). Parte da Vila Normanda já tinha ido abaixo na primeira metade da década de 1950, quando o Edifício Conde Sílvio Penteado foi construído, na esquina da vila com a Rua São Luís. A via foi mantida, com o prédio erguendo-se sobre ela, formando uma espécie de túnel no mesmo nível da rua. A parte interna da Vila seguiu no mesmo lugar, mas o destino das casas restantes já estava selado, de acordo com reportagem publicada pela Folha da Manhã, em 9 outubro de 1958. O artigo em questão, aliás, chama a atenção por seu tom. Nessa época, costumava-se aplaudir demolições, porque as casas demolidas davam lugar “ao progresso”. Porém, o texto publicado chegava a ser até nostálgico:

O progresso da metrópole bandeirante não respeitou o tradicional conjunto de moradias, habitadas de modo geral por europeus, devendo surgir naquela área, em breve, um arranha-céu como tantos outros já erguidos próximo do local. Desaparecerá, assim, mais um ponto [da] São Paulo [antiga]. (…) Hoje, pouco resta da sugestiva Vila Normanda; amanhã, somente haverá recordação de que foram as ‘casas de suíços’, uma tradição que o desenvolvimento de São Paulo impediu que existisse por mais tempo.

Hoje em dia, mesmo a recordação está opaca.

[pullquote-right]Sempre, na mesma hora, os portões se abriam, e o embaixador, velho, mas ainda com pose, saía para dar um passeio pela Avenida São Luís[/pullquote-right]A última casa que existia na avenida, a que pertencera ao embaixador, sumiu em 1970. Ela fora construída em 1891, por Jesuíno Fonseca, tio de Matilde Macedo Soares, esposa do embaixador. Quando da morte de Jesuíno, no final dos anos 1930, foi determinado que a casa fosse doada à Santa Casa, com usufruto vitalício para Matilde. Foi nessa época que a construção do Viaduto Nove de Julho exigiu a demolição da casa onde o casal Macedo Soares morava, o que apressou a mudança para o casarão que levava o número 3 da Rua São Luís.

Quando o embaixador ficou viúvo, em 1963, mudou-se para um apartamento, também na São Luís, e a doação foi oficializada, embora sua grande biblioteca tenha permanecido ali, dividindo o espaço com o escritório de advocacia Garland–Stroeter, que passou a alugar o imóvel da Santa Casa. “A velha casa do embaixador, vencida, enfim, pelo progresso”, escreveu o jornal carioca Correio da Manhã, em 24 de março de 1970. Apesar dessa frase, o texto é nostálgico e também falava de um hábito que o ex-diplomata mantinha:

Mas a casa mais famosa era o palacete do embaixador Macedo Soares. Durante anos, sempre na mesma hora, os portões se abriam, e o embaixador, velho, mas ainda com pose, saía para dar um passeio pela rua, cumprimentando os conhecidos.

No terreno, foi erguido um hotel: a construtora bancaria a obra e depois repartiria os lucros com a Santa Casa. “O prédio vai ter doze andares, e a fachada será moderna, toda em alumínio”, descrevia o Correio da Manhã. “O hotel terá um restaurante na sobreloja, com terraço para a rua, piscina e 144 apartamentos. (…) Mais um hotel de classe internacional para São Paulo.”

Vista a partir do topo do Conjunto Zarvos

Vista a partir do topo do Conjunto Zarvos

A poucos metros dali, na esquina com a Rua da Consolação, havia, até a primeira metade dos anos 1960, um casarão que teve como última ocupante a Rádio América. Em 12 de maio de 1963, um incêndio destruiu o primeiro andar do local. “A esposa do zelador da emissora foi quem primeiro viu o incêndio e, tomando nos braços o seu filho menor, rompeu o cordão de chamas que se alastravam pelo corredor superior e logrou salvar-se com o menino e chegar a tempo para dar o aviso”, descreveu a Folha de S. Paulo. Havia mais de trezentas pessoas no auditório da emissora, assistindo ao programa Roda dos Violeiros, que, curiosamente, não era irradiado pela América, mas pela Rádio Bandeirantes.

Como a Prefeitura tinha a intenção de alargar a Rua da Consolação, nem foi cogitada a hipótese de restauração dos danos e, menos de dois anos depois, teve início o processo de demolição da casa. “O prédio da Rua São [Luís], esquina da Consolação, onde funcionava até o ano passado a Rádio América, e que, nos seus 114 anos de vida, foi casa de saúde, residência particular, escritório da Light e estúdio de rádio, começou a ser demolido ontem, para alargamento da Consolação e construção de uma praça arborizada”, escreveu o jornal O Estado de S. Paulo em 16 de fevereiro de 1965, sob o título “Progresso derruba mais um velho prédio”. O texto prossegue com um relato interessante e uma previsão:

Há algum tempo, um cidadão pediu licença à diretoria da Rádio América para visitar a casa, que teria sido de seu pai. O visitante mostrou fotos antigas, com diferentes disposições de cômodos — o lugar onde hoje é o auditório tinha então no centro a cozinha —, mas o prédio era, sem dúvida, o mesmo. De acordo com o que disse o visitante, o prédio teria sido construído há pelo menos cem anos. (…) Demolida a construção, o terreno vazio passará a servir de parque descoberto de estacionamento, à esquerda do despejo das casas em frente, na esquina da Rua Martins Fontes com Consolação, que também estão sendo desapropriadas. O que sobrar, depois de alargada a rua, será transformado em praça arborizada.

Esquina da São Luís com a Consolação

Esquina da São Luís com a Consolação

A tal praça arborizada nunca teve chance, já que Nicolau Zarvos, antigo proprietário do terreno antes da desapropriação, readquiriu o que sobrou e uniu-o aos terrenos vizinhos, onde ele já estava levantando, desde 1960, o Conjunto Zarvos. Pelo que pude constatar em fotos, a área onde ficava o casarão não chegou a ser ocupada por nenhuma parte do prédio: o que não foi atropelado pelo alargamento da Rua da Consolação virou calçada.

A essa altura, o perfil da avenida já era predominantemente comercial, com prédios construídos para essa finalidade. Mais tarde, inclusive, dois prédios originalmente residenciais seriam convertidos para fins comerciais: o Vilma Sônia e o Princesa Isabel. A via também servia como endereço para diversas agências de turismo e para as principais (senão todas) companhias aéreas. E não eram lojinhas quaisquer, como descreve, novamente, o Correio: “A Lufthansa tem uma galeria de arte anexa, a Japan Air Lines tem um jardim japonês em miniatura na frente, a Air France tem instalações superluxuosas. E há ainda a Pan American, a TAP, a Varig, a Vasp, a Sadia, a Alitalia…” Lefèvre argumenta assim a preferência das empresas ligadas ao turismo pela área:

Nos anos 1950, a ligação com o turismo teve início, particularmente pela proximidade dos dois hotéis pioneiros no Centro Novo: o Hotel Excelsior, projetado em 1941 pelo arquiteto Rino Levi e construído na Avenida Ipiranga; e o Hotel Jaraguá, integrado ao edifício de O Estado de S. Paulo, projetado em 1946 e inaugurado em 1952. (…) A presença dos hotéis e a proximidade do comércio sofisticado do Centro Novo induziram a localização, nos térreos da maior parte dos prédios da Rua São Luís, de lojas de passagens das grandes companhias aéreas e de agências de viagens. Como acontece quando há concentração de estabelecimentos de um setor em uma mesma área, novos estabelecimentos do mesmo setor vêm se agregar aos já instalados, beneficiando-se de uma situação favorável já criada.

Anúncio de lançamento da Galeria Metrópole

Anúncio de lançamento da Galeria Metrópole

O perfil comercial era acentuado pela Galeria Metrópole, então conhecida como Centro Metropolitano de Compras, uma espécie de minishopping center que continha, segundo o Correio da Manhã, “lojas, butiques, restaurantes, buates (sic) inferninhos e cinema”. O Cinema Metrópole era considerado um dos mais luxuosos de São Paulo. A região era “um febril cruzamento de vida cultural, boemia e desfile de toda sorte de tipos”, nas palavras de Cláudio Willer. Esse “desfile” era também citado pelo Correio, ao falar da vida noturna por ali:

À noite, porém, a São Luís muda um pouco. O [Centro] Metropolitano é invadido pelos cabeludos e por hippies. A polícia, de vez em quando, dá suas batidas, os meninos e as meninas somem um pouco, mas sempre voltam. Ficam só ali, na Galeria do Metropolitano. Todos os outros pontos da São Luís permanecem vazios e silenciosos.

O anúncio de lançamento da galeria, reproduzido acima, foi publicado em dezembro de 1959 e dava ares grandiosos ao empreendimento. Em uma página inteira, manchetes e textos alardeavam toda a imponência do local, com “180 novas lojas, grande cinema e restaurante já em plena atividade (…), mais de um quilômetro de [vitrines e] quatro mil metros quadrados de praças”. Naquela época, não era necessário esclarecer que a imitação de página de jornal era, na verdade, um “informe publicitário”. E o pior é que as manchetes se referiam, na verdade, a dali a quase três anos, como se descobriria ao virar a página do jornal: “Você acaba de ler uma notícia de 1962.” Mas o leitor não deveria se preocupar, pois as notícias corresponderiam, “palavra por palavra, à realidade do que já está acontecendo e do que vai acontecer na Rua São Luís”. Palavra por palavra? Os dois itens do “Aviso ao público” provavelmente escaparam dessa definição.

Quase no fim do anúncio, uma foto é apresentada como “uma das últimas visões do edifício que pertenceu ao Laboratório Paulista de Biologia, demolido para dar lugar ao Centro Metropolitano de Compras”. A demolição ocorrera pouco após o laboratório vender o casarão, em outubro daquele ano. Ao menos, os compradores deixaram um gesto interessante para com a memória da cidade, embora o livro De Beco a Avenida também traga diversas fotos do imóvel. Ainda segundo o anúncio, o projeto da galeria foi resultado de um concurso “entre alguns dos mais renomados arquitetos paulistas”, ganho por Salvador Candia e Gian Carlo Gasperini. Na verdade, eles não tinham trabalhado em conjunto, tendo apresentado trabalhos separados, posteriormente combinados.

A Galeria Metrópole

A Galeria Metrópole

No início dos anos 1970, o primeiro sintoma visível do problema da verticalização da cidade e, mais especificamente, da Avenida São Luís, começou a ser notado: com o surgimento dos altos prédios em volta de árvores plantadas entre construções baixas, o porte destas foi alterado. Elas diminuíram as folhadas, perdendo, consequentemente, folhas. Em busca de mais luz, a copa, normalmente frondosa, passava a crescer o mais que fosse possível. Os jacarandás perderam vitalidade e começaram a apresentar feridas nos troncos. Segundo laudo do Instituto Biológico, “não [havia] sinal de parasita capaz de causar doença, [sendo] os sintomas apresentados — galhos secos e vegetação dos ramos deficiente — de ordem nutricional, consequência de perfuração no tronco”.

Matérias nos jornais avisavam que as árvores seriam cortadas e moradores da região faziam um abaixo-assinado solicitando a manutenção das dezoito árvores. O Jornal da Tarde, em sua edição de 29 de junho de 1971, trouxe uma manchete sugestiva: “Olhe para os jacarandás da Avenida São Luís, pela última vez”. O prefeito Figueiredo Ferraz, então, determinou que o corte fosse suspenso e que a Secretaria de Agricultura do Estado tentasse recuperar os jacarandás. Não deu certo, e as árvores acabaram removidas, em outubro. “A única massa de vegetação que restou do arvoredo original”, observa Lefèvre, “é a que ficou na Praça Dom José Gaspar e que pertencia às duas casas ali existentes”. Uma foto da época, de autoria de fotógrafo da Agência Estado e publicada na página 291 de De Beco a Avenida, é especialmente triste, mostrando uma avenida praticamente pelada, com um tronco tombado na calçada.

O canteiro central foi removido em 1978, porque a Prefeitura achou por bem aumentar o escoamento de veículos na avenida, devido às obras da atual Linha 3-Vermelha do Metrô. Havia a promessa de que os canteiros seriam reconstruídos após a inauguração da Estação República, em abril de 1982, porém isso não ocorreu, e os moradores da região passaram a cobrar uma providência. Apenas em junho de 1983 é que as obras foram iniciadas. Foram necessários apenas vinte dias, para que as seis floreiras, somando 150 metros de extensão, fossem levantadas. Nesse período, também foram plantadas 24 árvores, dando novamente à avenida o aspecto de um “bulevar”. “A São Luís vai ficar linda quando as árvores crescerem”, disse à Folha de S. Paulo Alfredo Zakia, um dos líderes do movimento, que foi de porta em porta na avenida para colher assinaturas no documento que cobrava da Prefeitura a reconstrução dos canteiros e o novo plantio das árvores. A última foto deste texto mostra como elas estavam em abril de 2012, vistas do Edifício Itália. Para os padrões atuais, é uma grande arborização, mas muito distante do que um dia já foi, especialmente antes do alargamento da avenida.

Até 1980, a Rua Marconi meio que chegava à Avenida São Luís, embora o nome do logradouro fosse, mesmo, Praça Dom José Gaspar. Foi nesse ano, mais precisamente no dia 17 de novembro, que a via ganhou um calçadão, impedindo o tráfego de automóveis, embora ainda seja possível que carros, geralmente de manutenção, passem por ali. A área já era restrita a pedestres, ao menos no papel, porém a praça ainda servia como estacionamento irregular, e o calçadão serviria para coibir essa prática. O projeto do calçadão previa até “uma quadra de futebol de salão para os office boys“, segundo reportagem da Folha de S. Paulo.

O início dos trabalhos causou reclamações dos lojistas da região, que temiam perder faturamento durante as obras, marcadas justamente para às vésperas do Natal. A Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), por seu lado, disse que, como a obra seria executada em etapas, ela não interferiria no movimento do comércio. Curiosamente, mesmo com o início das obras, ao menos no primeiro dia havia dezenas de veículos estacionados na praça. A Emurb “tirou o corpo fora”, garantindo que todos tinham cartão de autorização.

A Avenida São Luís vista do alto, em abril de 2012

A Avenida São Luís vista do alto, em abril de 2012

Alexandre Giesbrecht

Nascido em 1976, Alexandre Giesbrecht é publicitário. Pesquisa sobre a história do futebol desde os anos 1990 e sobre a história da cidade de São Paulo desde a década seguinte. Autor dos livros São Paulo Campeão Brasileiro 1977 e São Paulo Campeão da Libertadores 1992, já teve textos publicados em veículos como Placar e Trivela.

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2 respostas

  1. Muito legal, mesmo. Ótimo.

  1. 06/08/2014

    […] sobre o currículo e a capacidade de Guttmann, que incluiu a solicitação de informações ao embaixador José Carlos de Macedo Soares, então ministro das Relações Exteriores. “Estando o São Paulo interessado em contratar o […]

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