A Ilha do Sapo

“São Paulo terá de aguentar enchentes até o ano 2000”. Esse era o título de uma matéria publicada na página 10 da Folha de S. Paulo de 4 de janeiro de 1978. A reportagem estava logo abaixo de outra, sobre o estado de emergência decretado em São Caetano do Sul após as chuvas do dia anterior, e a afirmação era do já ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, alguns anos antes. Ele teria sido o último a prometer o fim das enchentes: “Antes do ano 2000, não há solução possível para o problema das enchentes em São Paulo.” Pois bem, estamos em 2014, e não existe sequer um prazo para acabar com esse problema.

O texto trazia ainda um breve histórico de algumas enchentes no Rio Tamanduateí e promessas para resolvê-las ao longo dos tempos. A matéria mais antiga entre as listadas era de 1877, sobre a cheia do Tamanduateí que tinha inundado a Várzea do Carmo, o atual Parque D. Pedro II. O jornal também fala de uma matéria de abril de 1968, intitulada “[O prefeito] Faria Lima não quer mais enchentes no Tamanduateí e ordena solução”. Pouco mais tarde, em janeiro de 1970, o rio encheu novamente, fato que se repetiria em fevereiro do ano seguinte. “E [em] todos os anos a cena se repete”, prosseguiu a Folha, para terminar a reportagem falando de uma forte chuva que desabrigou 115 famílias na Vila Mariana, na Freguesia do Ó e em Pirituba, na véspera do Natal de 1977.

Título à parte, o que mais me chamou a atenção foi o início do último parágrafo: “As zonas mais afetadas são sempre as mesmas. Ilha do Sapo, Ipiranga, Cambuci, zona do Mercado, zona leste, Glicério, alguns pontos de Santo Amaro, Brooklin, Cidade Ademar.” Ilha do Sapo?! Nunca tinha ouvido falar dessa localidade. Com tantos rios e córregos canalizados e “enterrados” em São Paulo, é pouco provável que a Ilha do Sapo ainda exista — ao menos como ilha, se é que ela foi uma ilha um dia, como se verá adiante. Busca por ela só retornava resultados de outras Ilhas do Sapo espalhadas pelo Brasil. Resolvi adicionar um “Tamanduateí” na busca, e os 27,7 mil resultados transformaram-se em apenas 94, mas boa parte deles relevantes para mim. Foi assim que consegui descobrir onde ela fica.

Parte da Ilha do Sapo, vista da Praça Alberto Lion; o restante fica à direita

Parte da Ilha do Sapo, vista da Praça Alberto Lion; o restante fica à direita

Um texto no site Upiranga trouxe uma pista: “‘Sou testemunha ocular da História’, brinca o professor Osmar. Ele recorda-se das grandes enchentes da década de 1940 na Ilha do Sapo, trecho compreendido entre os rios Tamanduateí e Ipiranga, que transbordava com frequência. Muitas vezes, não precisava chover no bairro. ‘É que [caíam] aquelas pancadas de chuva na cabeceira dos rios, lá pelos lados de São Bernardo, e as águas barrentas vinham fazer estragos aqui em nossas casas.'”

Na busca do Google Mapas, a única referência é a Lanchonete Ilha do Sapo, que talvez nem exista mais, na Rua Presidente Soares Brandão, na Mooca. O endereço está a dois quarteirões da confluência do Ipiranga e do Tamanduateí.

Também achei uma página do Diário Oficial do Estado de São Paulo de 17 de março de 1951, que contém um discurso do vereador Francisco Peres, em que a localização da Ilha do Sapo é um dos principais assuntos. “Em março de 1949, endereçava eu ao Executivo (…) uma indicação [em que] demonstrava a absoluta necessidade de proceder-se à canalização e retificação do Rio Tamanduateí, no trecho compreendido entre o local conhecido como ‘Ilha do Sapo’ e a Vila Carioca, na várzea do Ipiranga”, começava o edil.

Ele foi apartado por outro vereador, Sebastião Gomes Caselli, e seguiu-se o seguinte diálogo:

CASELLI: Acho que há [algum] engano, porque já foi autorizada a construção da ponte, na Rua dos Patriotas, e essa ponte é insuficiente para o escoamento das águas do Tamanduateí, que formam uma garganta e vão inundar a Ilha do Sapo (…). Aliás, a Ilha do Sapo fica acima de Vila Prudente, do lado esquerdo. Portanto, é errada a maneira por que está sendo construída essa ponte.

PERES: Não fiz alusão alguma à ponte. Vou, apenas, restringir-me às informações fornecidas pela Secretaria de Obras.

CASELLI: Vossa Excelência vai permitir-me que novamente o aparteie. A Ilha do Sapo, comumente chamada Vila da Carioca, é um lugar insalubre.

PERES: A Ilha do Sapo fica, mais ou menos, um quilômetro aquém da Rua dos Patriotas. Entre a Ilha do Sapo e a Vila Carioca, existe uma distância aproximada de quatro quilômetros, mais ou menos.

CASELLI: Exatamente. Vossa Excelência tem razão.

PERES: Ao passo que a Vila da Carioca fica, mais ou menos, 2,5 mil metros além da Rua dos Patriotas.

CASELLI: Vossa Excelência conhece o local melhor do que eu. Estive lá duas ou três vezes e não mais apareci. Entretanto, solicitei providências que me foram pedidas pelos moradores do local. Devo dizer que é lugar baixo, insalubre, impróprio para construção de casas residenciais. Entretanto, está a região toda construída. Aquela ponte na Rua dos Patriotas forma uma garganta, e a água represada vai atingir exatamente esse lugar que Vossa Excelência citou. De modo que é de suma importância que a Prefeitura, antes de terminar a ponte que está iniciada na Rua dos Patriotas, faça de maneira que a mesma não venha a constituir um entrave, um empecilho, no futuro, para os moradores daquele local.

O debate sobre a localização da Ilha do Sapo foi, então, interrompido pelo presidente da Câmara, que estava preocupado com um grave problema: “Peço licença para advertir o orador de que restam poucos minutos para o término da hora do expediente.” Peres, então, prosseguiu com sua explanação da necessidade de retificação do Tamanduateí, sem, contudo, citar novamente a Ilha do Sapo.

Outro vereador, alguns anos depois, deu nova pista em uma solicitação de calçamento ou pavimentação da Rua Almirante Pestana, uma via de um quarteirão, que é mais ou menos a continuação da Rua da Independência após a Avenida Dom Pedro I, terminando na Avenida do Estado. No documento, o vereador Mário Câmara cita o acesso à Ilha do Sapo como um dos motivos para que a pavimentação da rua seja feita: “Ademais, cumpre notar que se trata da única rua que dá acesso à ponte existente sobre o Rio Tamanduateí e que faz ligação com o bairro denominado ‘Ilha do Sapo’, sendo trajeto obrigatório de todos os moradores do referido bairro e que se utilizam, forçosamente, das linhas de ônibus e bondes que trafegam pela Avenida Dom Pedro, sendo que a rua em apreço, principalmente por ocasião das chuvas, não dá condições de trânsito, sequer para pedestres.”

Trecho da solicitação de pavimentação da Rua Almirante Pestana

Trecho da solicitação de pavimentação da Rua Almirante Pestana

A localização detalhada no pedido do vereador bate com a localização da já mencionada Lanchonete Ilha do Sapo, que, de fato, fica do outro lado do Rio Tamanduateí, em relação à Rua Almirante Pestana. A ponte que ficava ali, entretanto, já não existe mais, provavelmente há décadas. No mapa abaixo, a Ilha do Sapo seria o conjunto de ruas entre a Avenida do Estado (Rio Tamanduateí) e a linha do trem. Passando o cursor sobre o mapa, é possível visualizar os nomes das ruas, incluindo a Almirante Pestana e a Presidente Soares Brandão, endereço da Lanchonete Ilha do Sapo.

Um texto publicado em 2001 no jornal Ipiranga News traz alguns detalhes históricos sobre o local e menciona ainda a Baixada da Égua, outra localidade do bairro: “[A Ilha do Sapo e a Baixada da Égua] fazem parte da outrora região mais pobre do bairro. A [Ilha do Sapo] fica na jurisdição da Mooca, na margem direita do Tamanduateí até a Avenida Presidente Wilson e suas transversais.”

Nesse texto, são citadas duas versões para o nome do local: “Por ser uma região ribeirinha, a parte da Mooca tinha muitas rãs, daí surgiu o apelido de ‘Ilha do Sapo’. Essa afirmação é contestada por Natal Saliba, que mora no bairro há [setenta anos]. Ele conta que um morador, depois de tomar uns aperitivos, montou numa égua e ficou galopando pelo bairro. Ao passar em frente ao Bar da Paz, de seu irmão Pedro, um bêbado gritou: ‘Lá é Ilha do Sapo. Aqui é Baixada da Égua.’ Daí o nome.” A primeira hipótese parece mais provável.

Alexandre Giesbrecht

Nascido em 1976, Alexandre Giesbrecht é publicitário. Pesquisa sobre a história do futebol desde os anos 1990 e sobre a história da cidade de São Paulo desde a década seguinte. Autor dos livros São Paulo Campeão Brasileiro 1977 e São Paulo Campeão da Libertadores 1992, já teve textos publicados em veículos como Placar e Trivela.

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4 respostas

  1. Carlos Barbara disse:

    Prezado Alexandre: gostei muito de seu texto a respeito da Ilha do Sapo.
    Fui morador de lá do final da década de 1950 até 1978, quando mudei para o Mandaqui (Zona Norte) .
    Tenho ainda um imóvel(um dos poucos que restaram), na Rua Presidente Costa Pereira, onde meu pai tinha um bar de nome, Bar e Lanches Presidente da Paz, que não é o que o Natal Saliba cita como Bar da Paz.
    Conheci o Natal e seu irmão, não sei se seja o Pedro, nós o conhecíamos como “Mugu”, que tomava conta de um time varzeano em que joguei de zagueiro, era chamado “Batidas Pernambucanas”, os jogos eram realizados aos domingos a tarde em um campo de terra batida próximo ao Clube Atlético Ipiranga, onde hoje é a Av do Estado.
    Era vizinho do Irineu Peixe, torneiro mecânico na Mercedes Benz e que escreveu um livreto muito bom a respeito da Ilha do Sapo, que recebi e emprestei para uma outra pessoa, que não me devolveu.
    Me parece que o Irineu Peixe, infelizmente, faleceu no ano passado, mas gostaria tanto de ter esse livro em mãos.
    Lembro-me de um dos seus irmãos, Rubens Peixe, o pai deles trabalhava na pequena metalúrgica, Irmãos Baragatti, Fábrica de Correntes, que localizava-se na mesma Presidente Costa Pereira, em frente ao Bar do meu pai.
    Conheci também o Romeu Rossi, que me parece que é advogado e que no sábado de Aleluia, fazia o julgamento do judas “do ano”, na “Baixada da Égua” ,pracinha da Avenida Tereza Cristina, próximo da Igreja Nossa Senhora das Dores, da Rua Tabor, que a minha irmã frequenta até hoje.
    Finalizando Alexandre, veja de quantos fatos e muito mais, seu artigo, me fez lembrar, correndo até lágrimas de minha face, lembrando de entes queridos e amigos que já se foram.
    Abraços
    Carlos Barbara
    caab.eng@gmail.com

  2. Abel disse:

    Mais duas curiosidades: o nome anterior da Praça Alberto Lion (referida na legenda da foto) era Praça 9 de julho, que foi o fundador da Lion, revendedora das máquinas Caterpillar que ocupava uma grande área nas proximidades. E na região do Sacoman existe a rua Francisco Peres, (primeiro representante do Ipiranga na Câmara, segundo o Dicionário de Ruas). E parabéns pela pesquisa sobre a “Ilha do Sapo”.

  3. Lucio Magalhães disse:

    Parabéns, a Ilha do Sapo fica exatamente onde você identificou, entre a Av. do Estado e a Av. Presidente Wilson, incluindo aí a Soares Brandão e Costa Pereira. Morei no número 75 da Soares Brandão até 1976 na casa dos meus pais, que estavam lá desde a década de 40. De vez em quando ainda passo pelo local, mas está completamente deteriorado. Estou escrevendo um livro com crônicas da Ilha do Sapo, contando estórias pitorescas deste pedaço esquecido de São Paulo.

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